Como acontece o parto?

O início do trabalho de parto é desencadeado pelo amadurecimento de alguns órgãos/sistemas:

  • A pele
  • O sistema imunológico
  • O sistema neuro-muscular
  • E o principal, o sistema respiratório

Fisiologicamente, assim que ocorre a maturidade pulmonar, os pneumocitos tipo II, perdem uma camada que recobre suas células, em forma de tensão superficial. Com isso, sufactante é liberado e reconhecido pelo organismo materno, que entende que o bebê está pronto para nascer, dando início aos processos hormonais que iniciam e fazem parte do trabalho de parto.

A contagem de semanas que fazemos acerca da idade gestacional é apenas uma linha guia para saber em qual fase a gestante está. A espécie humana tem uma grande variação em maturidade, que pode chegar até 5 semanas. Ou seja, um bebê com 40 semanas não necessariamente está maduro, se o seu tempo é de 42 semanas, por exemplo.

Não há como prever a maturidade. Costumo dizer que um bebe de termo, que nasceu sem a mãe entrar em trabalho de parto é um bebe imaturo, justamente por não ter tido o tempo natural de amadurecimento dos seus sistemas.

Uma mulher que entra em trabalho de parto naturalmente a termo, é porque seu bebê está pronto para nascer.

Agora falando sobre as fases do trabalho de parto (TP), existem 4 fases:

1º Os pródromos

2º Fase latente

3º Fase ativa

4º Expulsiva

Os pródromos

É caracterizado por contrações aleatórias, sem ritmo e com intensidade variada.

Ou seja, a contração vem em 10 minutos, depois em 30 minutos, em seguida em 15, sem padrão, hora dolorida, hora média ou fraca.

O pródromo é uma espécie de aviso do trabalho de parto, é o momento onde a pressão da contração faz com que a cabeça do bebe pressione o colo, afinando e preparando este para começar a dilatar.

Nessa fase, a gestante deve avisar a equipe que está prodromando.

É uma fase para relaxamento, para reservar energias, tomar muito líquido, se alimentar bem e dormir, para que haja reserva de energia para quando houver o trabalho de parto.

A fase latente

Nessa fase, os hormônios estão sendo produzidos de forma contínua.

As contrações são ordenadas e com a mesma intensidade moderada.

Quando chega a fase ativa a mulher já sabe que o parto irá acontecer naquele dia ou em breve.

A intensidade moderada das contrações começa a incomodar.

É hora de chamar a doula! Ela quem dará todo suporte físico e emocional, além de aplicar métodos não farmacológicos para alívio da dor, como massagem, compressa e cuidar do ambiente, para que esteja aconchegante e acolhedor.

Quando a fase ativa vai se intensificando, os hormônios aumentam a produção e o primeiro hormônio que era a prostaglandina vai mudando e dando espaço à ocitocina, o hormônio do amor, que potencializa o efeito das contrações. Aqui, vamos caminhando à fase ativa.

A fase ativa

As contrações são ritmadas – 3 em 3 minutos – com maior frequência e intensidade forte.

A mulher percebe realmente que o seu bebê irá nascer.

Ela fala que sente dor, seu comportamento muda, ela fica mais reclusa, já não fala com a mesma frequência, não tem fome ou não consegue comer. Pede para uma outra pessoa falar por ela, o parceiro(a) ou a doula.

Além das massagens, posições e ambiente preparado para o alívio da dor, a parturiente pode entrar no chuveiro ou banheira, o que ajuda a relaxar e minimizar a sensação.

Aqui entra em cena a equipe de parteiras(os) e/ou obstetras, chamados pela doula.

Se o parto é domiciliar, a equipe irá para a casa da parturiente. Se o parto é em hospitalar com equipe de plantão, é hora de ir para o hospital fazer uma avaliação.

Se o parto é hospitalar com equipe particular, uma obstetriz irá até a casa da parturiente avaliar, para que a parturiente não vá muito cedo ou com dilatação total.

A mulher está em fase ativa quando a dilatação é maior do que 5cm.

Entre 7cm e 10cm é onde ocorre a partolândia, não é um termo científico, é como as mulheres chamam essa fase. Há uma mudança no comportamento. Uma conexão interior poderosa.

Ocorrem as vocalizações, uma expressão, libertação.

E com o avanço dessa fase até alcançar os 10cm de dilatação, entramos na fase expulsiva.

O Expulsivo

Após a dilatação total, o bebê começa a descer.

As contrações continuam, mas mudam o padrão.

A sensação é uma mescla de alívio, pressão do bebê descendo e vontade de fazer força.

A concentração da mulher se volta totalmente para o canal de parto.

As vocalizações mudam o padrão de som, é algo interno, é o expulsivo.

É nessa fase que chamamos o pediatra neonatal, que irá assistir a chegada do bebê.

O parto não termina quando o bebê nasce, mas sim após 1h do nascimento da placenta, que é tido como um período de observação pós parto.

Ainda há concentração e contração, e assim que a placenta vem, o parto é concluído.

O tempo que leva o parto natural?

Cada mulher é um indivíduo único, com as suas particularidades, experiências, história e fisiologia, então existe muita variação.

Mas em geral posso dizer que:

  • Os pródromos podem levar vários dias;
  • A fase latente até 24h;
  • A fase ativa até 12h;
  • E a expulsiva até 3h.

Claro que há casos onde o parto leva 3h do início ao fim e outros que podem chegar a 3 dias. Se a mãe e o bebê estão bem e a evolução é boa, então o parto segue tranquilamente.

Há 2 grandes parâmetros para acompanharmos o bebê:

  • Monitorização Intermitente: ouvindo o bebê em intervalos definidos.
  • Cardiotocografia: que pode ser utilizado em intervalos definidos, em um momento específico ou de forma contínua.
  • Partograma
  • Grafico de evolução das fases de parto.
  • É através da frequência cardíaca que identificamos que o bebê está com boa oxigenação.

Sobre a bolsa

A bolsa pode romper em qualquer momento, em qualquer uma das fases de trabalho de parto. Pode inclusive romper fora de trabalho de parto, antes dos pródromos ou o bebê nascer com a bolsa íntegra.

O rompimento da bolsa não caracteriza nenhum estágio do parto, mas por outro lado ajuda a ter mais informações sobre o bebê, pela avaliação da cor do líquido.

Quando o rompimento ocorre, o bebê encaixa mais baixo, forçando o colo e acelerando o trabalho de parto.

A dor

É importante entender que a dor do parto não está ligada à sofrimento.

Muito pelo contrário. Está ligada ao amor. É apenas uma sensação. Se entregar às contrações, aceitando-as de braços abertos, como um abraço, é deixar o corpo trabalhar e se abrir espaço para a chegada do seu bebê.

Não é mais uma contração e sim menos uma, que te deixa mais próxima de conhecer aquele ser tão amado.

O parto é um grande rito de passagem. É a nossa expressão mais humana!

Por: Braulio Zorzella

Manobra de Kristeller

Recentemente vimos a notícia que o Tribunal de Justiça do Estado de São Paulo condenou o hospital Santa Catarina e o plano de saúde SulAmérica a indenizar por dano morais uma mãe vítima de violência obstétrica em maio de 2008, por conta de uma manobra de Kristeller feita pelo anestesista durante o parto, a paciente desenvolveu incontinência urinária e fecal e precisou fazer cirurgia para reparar os danos causados.  Veja a reportagem aqui
Em 2014 um hospital público de São Paulo aboliu a prática durante os partos após uma paciente procurar o Ministério Público Federal para relatar as dores que sentiu durante o procedimento. Veja a reportagem aqui:
Veja a manobra:

Até hoje muitas mulheres sofrem esse tipo de violência obstétrica. Afinal o que é essa manobra de Kristeller?
A manobra de Kristeller é uma manobra obstétrica criada pelo ginecologista alemão Samuel Kristeller em 1867. Esta manobra consiste na aplicação de pressão no fundo do útero durante o período expulsivo para adiantar a saída do bebê. É um procedimento rotineiramente usado por obstetras e que podem trazer graves consequências para mãe e bebê.
Muito países proíbem essa manobra além de não ser recomendada pela OMS.
Veja alguns riscos para mãe e bebê:
Para o bebê
  • Aumento da probabilidade de um parto difícil com complicações relacionadas aos ombros do bebê (fratura de clavícula, trauma encefálico, descolamento do músculo esternocleidomastoideo);
  • Paralisia de Erb – consequência de lesão nos nervos do plexo braquial, que controlam os movimentos de ombros, braços e mãos;
  • Fratura de úmero ou de costelas;
  • Hipóxia – sofrimento para o feto com diminuição ou ausência de oxigênio necessário ao feto por meio da placenta;
  • Lesões de órgãos internos;
  • Hematomas;
  • Aumento da pressão intracraniana, cefalohematoma, hemorragias intracraniais (especialmente quando o parto é instrumentalizado).

 

Para a mãe

  • Hemorragias e contusões;
  • Rotura uterina e inversão uterina, que podem provocar hemorragias graves e, em casos extremos, desembocar em extirpação do útero; Ou seja, a mulher pode perde seu útero!
  • Aumento do risco de descolamento do períneo e/ou da vagina em terceiro ou quarto grau;
  • Prolapso urogenital (quando os órgãos genitais internos da mulher – útero, ovários, trompas de Falópio, bexiga e os canais musculares que formam a vagina, o reto e a uretra – se projetam para fora, empurrando as paredes vaginais ou retais;
  • Desprendimento prematuro da placenta;
  • Fratura de costelas;
  • Contusões
A MANOBRA DE KRISTELLER NÃO TEM QUALQUER INDICAÇÃO e é uma Violência Obstétrica que pode e deve ser denunciada, baixe aqui a cartilha com todas as informações para fazer a denuncia sobre essa e outras violências.
Bibliografia: http://www.warmismulheresbolivianas.com.br/blog/manobra-de-kristeller-violencia-no-parto/

A dor além do parto

Uma em cada quatro mulheres brasileiras sofre algum tipo de violência no atendimento ao parto. Acontece todos os dias, em todos os lugares e a maioria dessas histórias não são contadas. “A obstetrícia é mundialmente a especialidade médica com maior número de ocorrências, de infrações, quer na lesão corporal, quer nas mortes. Setenta por cento de tudo que o Ministério Público realiza em matéria de processos dos chamados erros médicos estão nesta especialidade”. A afirmação é do promotor de justiça do Distrito Federal, Diaulas Ribeiro.
Assistam ao documentário “A Dor Além do Parto”
Edição: Léo Preto
Imagens: Rodrigo Sanches
Narração: Priscilla Peixoto