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Parto

Nascer no Brasil

Ter um filho no Brasil hoje é uma tarefa bem complicada. Chegamos ao auge da medicalização do parto nem por isso as taxas de mortalidade e morbidade materna estão diminuindo. As opções são: quando não é cesárea é um parto normal repleto de intervenções.  Na rede privada vemos maternidades com índices superiores a 80% de cesáreas.

Os motivos para tantas cesáreas são diversos:

Segurança da cesárea – hoje em dia, mesmo considerando que ela envolve mais riscos do que um parto normal, as cirurgias são mais seguras se compararmos na Antiguidade e na Idade Média, na qual a maior parte dos relatos de cesariana acentua que o procedimento era aplicado apenas em caso de morte da mãe. Os relatos do primeiro parto em cesariana com a mãe viva remontam ao ano de 1500.  O avanço da medicina tornou a cesárea mais segura e uma forma simples e rápida de trazer bebês ao mundo.

Logística médica – para os médicos é melhor fazer cesáreas para que possam organizar suas agendas, não precisem acordar de madrugada ou serem interrompidos em algum compromisso social. Para isso usam de situações estapafúrdias para convencer a mulher de que a cesárea é mais segura e que o bebê já está pronto para nascer.

Medicalização do parto – o parto normal no Brasil submete a gestante a dores desnecessárias, a assistência ao PN é tão medicalizada e tão intervencionista que as mulheres acabam concordando com o médico quando ele diz que a cesárea é uma boa opção. Nos hospitais, por exemplo, o parto costuma ser feito com a mulher deitada, o que dificulta a saída do bebê,  além disso, é regra a utilização da ocitocina, que aumenta a dilatação e as doloridas contrações, a episiotomia, corte na vagina é feita de rotina e o fórceps é comumente utilizado, sem contar manobras para acelerar o expulsivo que podem ter consequências graves tanto para o feto como para a mãe. Tudo isso torna o parto extremamente violento causando medo e repulsa de muitas mulheres.

Modernidade – segundo a médica Simone Diniz do departamento de saúde pública da USP, a mensagem enviada pela comunidade médica é que a cesariana é uma forma de parto mais moderna e higiênica, enquanto o parto normal é feio, primitivo e sujo.

Crendices – até pelo fato da cesárea ser segura e mais simples hoje em dia,  motivos como signo, numerologia, datas próximas a Natal, Carnaval, etc, são comumente usadas para se antecipar os nascimentos.

Formação médica – obstetras são cirurgiões por formação. A maioria esmagadora diz não ter assistido nenhum parto fisiológico na faculdade/residência. Mas saem especialistas em cesárea. O que não seria um problema se eles fossem escalados para atender um parto quando realmente precisa de uma intervenção.

Estrutura dos hospitais –  no caso de cidades muito pequenas os hospitais as vezes não tem anestesista ou neonatologistas de plantão com isso as cesáreas são agendadas para não correr risco de acontecerem partos fora do horário. Em hospitais em que se atendem nascimento de bebês de alto risco, como não há especialistas de plantão 24/7, os médicos preferem marcar as cesarianas para os dias e horários onde os especialistas estão presentes no hospital, assegurando assim que o recém-nascido possa ser imediatamente atendido.

Remuneração médica – os planos de saúde pagam muito pouco por um parto. Não compensa financeiramente para o médico conveniado, a  solução é marcar mais de uma cesárea num só dia, sem comprometer o consultório.

Desinformação/medo – as mulheres têm pouca informação sobre o processo de gravidez/parto e muitas ficam imersas no medo de algo acontecer.  Confiam plenamente no médico e não questionam ou buscam informações para se empoderarem de seus partos. Muitos médicos alegam que a maioria de suas pacientes já chegam em seus consultórios querendo a cesárea. Porém, estudos apontam que quase 70% das brasileiras deseja um parto normal no início da gravidez mas poucas recebem apoio em suas escolhas e apenas 15% conseguem parir o que demonstra claramente uma influência do pré-natal na decisão das mulheres pelo tipo de parto.

Modelo de assistência ao parto – a forma como se estabeleceu a assistência ao nascimento aqui no Brasil exerce papel preponderante na escolha pelo tipo de parto, tanto pela parturiente quanto pelo profissional que atende ao parto. A assistência que deveria ser multiprofissional, fica na mão de um cirurgião, do médico que tem o poder de intervir. Eles são formados para isso.

Veja o exemplo a Holanda que está entre os países com menor intervenção médica na atenção ao parto e  é destaque por sua reduzida taxa de cesárea comparada aos demais países desenvolvidos. Nesse país, a frequência de intervenções médicas é pequena e cerca de 30% dos partos de baixo risco ocorrem no domicílio da gestante. O modelo holandês tem sido usado para indicar que a assistência ao parto fora do hospital e efetuada por parteiras traz bons resultados.

A maioria das gestantes não vão precisar de uma intervenção ou de uma assistência medicalizada/cirúrgica. Se a assistência ao parto às mulheres de risco habitual fosse centrada nas parteiras ou midwifes (que tem menos poder de intervir e tem um olhar mais voltado para o fisiológico) como acontece na Holanda.

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